o primeiro dia do resto da minha vida

2005-05-15 5 comentários
A esta altura do campeonato fica-me a sensação de ter já passado várias vezes pelo "primeiro dia do resto da minha vida". O dia 1 de Abril de 2004 foi um desses dias e o dia 1 de Abril de 2005 foi outro. Melhores, piores, surpreendentes ou nem por isso, todos marcaram novas etapas e definiram objectivos diferentes.








A cada uma destas etapas entrego-me de alma e coração, por inteiro e sempre até ao meu limite, ainda por definir. Talvez por isso, volta e meia, sinta a necessidade de parar e ficar a sós comigo e com os meus pensamentos. Nestas alturas fico sociável ao mínimo. Enquanto o pré-aviso de limite não chega, estes momentos aparecem intercalados na rotina diária e é então que, quem tem o azar ou a sorte de estar por perto me diz, normalmente rindo, "Onde estavas, na Lua?".


Por vezes, mais do que eu gostaria que tivessem acontecido, as novas etapas sucedem-se a um ritmo superior ao que eu desejaria. Isto já me aconteceu por 3 ou 4 vezes durante a vida e aí eu sei que, mais dia menos dia, esta minha forma de ser me conduz a um cansaço quase inexplicável. Sinto-me impotente e incapaz de viver tudo a 100% e aí a minha "defesa" obriga-me mesmo a parar, a pôr os motores em "ponto morto" para poder então reflectir, analisar e definir estratégias. Sou limitada, não consigo fazer tudo ao mesmo tempo e tenho necessariamente que hierarquizar as opções. Sinto-me sempre frustrada ao fazê-lo e isso obriga-me a grandes conversas comigo própria. Até à data tenho conseguido chegar a algum tipo de conclusão mais ou menos lógica mas sempre muito condicionada pelos "ideais" de que não me consigo livrar.

Serão eles que me garantem a energia suficiente para ultrapassar tudo ou serão, pelo contrário, um sério entrave ao meu discernimento e sanidade mental? Não sei. Ao longo da vida tenho ouvido tantas vezes "pronto, o que é que ela vai fazer desta vez" como "só tu para conseguires ultrapassar isto desta forma". Uma no cravo outra na ferradura? Sou sempre eu, a mesma pessoa, a ser revoltada e abnegada, intransigente ou compreensiva, louca ou muito sensata? Acho que sim. A este ritmo só devo concluir o processo de crescimento, maturação, definição ou o que queiram lá pelos 90 ou mais... Já há muito tempo que me convenci que hei-de sair deste mundo, desta vida sem ter vivido quase nada e com a sensação de que quase tudo está por fazer.


Provavelmente o número de primeiros dias do resto da minha vida dá algum reforço a esta ideia. Ou a intensidade com que me entrego a cada um deles... O dia em que decidi sair de casa dos pais para ir viver "o amor e uma cabana"; o dia em que sai da faculdade às 11 da noite com a certeza de que não voltaria mais; o dia em que vi o meu pai adoecer e o dia em que o enterrei; o dia em que me vi sentada numa cadeira de rodas num terceiro andar sem elevador; o dia em que me vi na vertical e a reaprender a andar; o dia em que consegui andar sem me agarrar a coisa nenhuma para além da firme vontade de o fazer; o dia em que decidi pôr um ponto final numa relação em que "o outro lado" preferia vêr-me em casa, sentada; o dia em que decidi que tinha obrigatoriamente de ter formação em informática para poder estar "em contacto com o mundo" caso voltasse a passar pela mesma situação; o primeiro dia de formação e o primeiro dia em que soube que esta tinha que continuar até eu conseguir fazer o que queria, custasse o que custasse. Custou muito. Horas e horas de empenho num meio em que quase parecia ser a única a tê-lo, muitas relações estabelecidas e outras postas em segundo plano para não se "atravessarem" no meu caminho e sempre que o tentassem fazer. Muitas ligações contínuas e muito tempo desligada do mundo a estudar, a trabalhar, a tentar aprender.

Houve muitos mais dias tão ou mais importantes do que estes, antes e já depois de todos estes. Não sei bem porque não os menciono. Talvez façam parte de uma outra vida se bem que seja também a minha. Talvez os sinta mais distantes ainda que estejam tão presentes e façam parte de mim.

A minha vida. Dou por mim a pensar que se fosse uma telenovela a maior parte dos episódios seria de mau gosto e quem os visse acharia que o argumentista tinha uma imaginação desenfreada. Uma tragicomédia, talvez, já que mais tarde ou mais cedo tenho mesmo que me rir de algum pormenor que relembro ou até de todo o episódio. Contas feitas, e não quero que sejam demasiado rigorosas, sei que me rio muito mais do que choro.

Estou a viver uma nova fase. As coisas que crio, que construo, saiem para o mundo. Têm um princípio, um meio e um fim, prático. Algumas passam pelas minhas mãos e outras nascem na minha cabeça e adquirem forma e corpo e vida própria. Desprendem-se de mim e vão servir um objectivo que para além de ser o meu é também o de outras pessoas. Ainda estou a interiorizar isto, calma e reflectidamente, porque já há bastante tempo, há demasiado tempo que não acontecia, a este ritmo. O sentido prático desaprende-se e reaprende-se. Tenho a sorte de estar a reaprender o meu com muito prazer.

É bom viver, não é?

5 comentários:

  • Maria do Rosário Sousa Fardilha disse...

    Pelo menos é esse o espírito que é preciso ter e então, de repente, até pode acontecer percebermos que é mesmo bom viver! Mas foram grandes as voltas dessa vida, não é? Com provas duras!

    Fico com a impressão de estás mesmo a fechar um ciclo e a abrir outro - estás muito lúcida e muito apaixonada, já a distanciar-se de umas coisas e entusiasmada com as novas. E isso parece-me que é viver sem desperdicios! Mas tb eu não sei como é possível viver sempre na direcção de tudo o que sonhamos :)

  • Invisible disse...

    Muito interessante.
    Mas interessante também é o facto que antes de ligar o PC estava a pensar no post que ia fazer...
    ...e antes de postar passei por aqui, curioso.

  • Graca Neves - mgbon disse...

    A capacidade para recomeçar é igual à capacidade com que se vive mesmo aquilo que se perde.
    A vida não faz sentido sem paixão. A ela se deve tudo na vida...o que de bom e de mau acontece.
    Após reposta a energia, sentimos que os limites são mesmo o infinito!

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